In memoriam: um convite à leitura de Diogo Ramada Curto
In memoriam: um convite à leitura de Diogo Ramada Curto
Aos 66 anos, deixou-nos Diogo Ramada Curto (1959-2026). Foi duro vê-lo partir de forma rápida, precoce e com tantos projetos em mãos.
A academia e o campo cultural perderam alguém que cultivava a tertúlia e alimentava a polémica com sofreguidão; alguém sempre à procura de outro ângulo para ver e desconstruir um enredo historiográfico, uma ideia, no plano das Ciências Sociais e da mansa dinâmica intelectual portuguesa. Ser crítico e exercer cidadania crítica fazia parte do seu modo de vida.
Na sua produção historiográfica, saliento o quanto o Pós-modernismo marcou as suas opções; como, mais tarde, aconteceu o mesmo com os estudos sobre a Globalização e os pós-coloniais e descoloniais. Nos finais dos anos de 1980 e inícios da década de 90, Diogo Ramada Curto revelou uma enorme atração pelas pequenas escalas de análise, pelo enfoque nas contradições e na incoerência das práticas dos sujeitos sociais coevos, sem menosprezar as visões dos acantonados na base da pirâmide, a par da leitura das “elites alargadas”. Depois de anos em que imperara a firmeza das estruturas, a sua abordagem historiográfica apostava na análise fragmentária, na intensa interpretação de vestígios, em busca de significados. Era um Geertz feito historiador, que ensaiava estudos de microhistória, dir-se-ia. Inspirava-se em obras da própria época e de formato heterogéneo, como as de Severim de Faria (1624), Leitão de Andrade (1629) ou as epanáforas (1627-1654) de D. Francisco Manuel de Melo. Ainda recordo o desconforto e a surpresa com que membros do seu prestigiado júri receberam a sua tese de doutoramento. Não obedecia aos cânones, não obstante a sua vasta erudição de arquivos, mas também de leituras, no campo História e das Ciências Sociais. Vale a pena ler o livro que resultou da prova académica e que viria a ser publicado muitos anos depois: Cultura política no tempo dos Filipes, 1580‑1640 (Edições 70, 2011). A introdução merece uma leitura atenta, como as de todas as obras que publicou posteriormente.
Sem abandonar o interesse pelo micro e o fragmentário, mais tarde, deixou-se seduzir pela história global, investindo na análise dos impérios, especialmente o português. Esforçou-se por ajudar a varrer o velho luso-tropicalismo, que sobrevivia, bem como o neo-lusotropicalismo que se foi erguendo, já no Portugal democrático. Mesmo sobre o Império colonial, Diogo Ramada Curto pôs sempre o foco do seu inquérito ensaístico nas práticas culturais. Por essa época, constituíam quase sempre as menos estudadas. Cerca de 2009, por exemplo, quis “analisar como foi pensada e registada a expansão dos portugueses” [Cultura Imperial e projetos coloniais (séculos XV a XVIII), Campinas: Ed.da Unicamp, 2009, p. 8], desconstruindo a visão glorificadora e deixando a nu as manifestações de violência, exploração e racismo que tal empreendimento envolvera.
Aliás, a cultura, por vezes trasvestida de discurso político ou de cultura política, foi sempre o seu grande fulcro de análise. Conseguia articular a tradição da História da Literatura com a da História da Ideias, do livro e materiais impressos, a atenção aos contextos, sem esquecer a sociologia dos atores e agentes; tudo com enquadramentos teóricos, bebidos no amplo campo das Ciências Sociais, com lentes muito atualizadas. Esse foi o seu grande cunho. Só o conseguia fazer porque cultivava ativamente o trabalho de arquivo e biblioteca e “as práticas de antiquário”, como tantas vezes dizia, de forma algo irónica.
Agora só nos restam a sua obra, o sorriso das suas filhas, e muitas memórias. Custa a crer que o Diogo Ramada Curto tenha morrido. Tal como me aconteceu hoje, acho que sempre que entrar na Biblioteca Nacional, em Lisboa, vou vê-lo, no lugar Q9, da sala de leitura geral. Mesmo depois de diretor da instituição era possível encontrá-lo ali, a desbravar bibliografia. Nunca deixou de ser um leitor voraz. Ler, pesquisar e criticar para produzir melhor, faziam parte do seu quotidiano. Por isso, também pugnava por uma Biblioteca Nacional mais confortável, actualizada e empenhada na cultura e no debate. Espero que essa linha e, ao menos, o seu espólio – com muitas fichas manuais, de caligrafia miúda – não se percam. Este último interessará aos atuais e futuros estudiosos.
Com um obrigada, Diogo, deixo o convite à leitura dos seus diversos trabalhos. Podem ser uma via privilegiada para desconstruir pseudo‑etiquetas identitárias e reconhecer, nas entrelinhas e nos embaraços do presente, as marcas persistentes do passado, português e não só. Global.
Évora, 16.abril.2026
Fernanda Olival
(Universidade de Évora; CIDEHUS)
